Os Projetos
Amore
Locais
Estreou no Teatro Storchi em Modena, Itália, a 28 de outubro de 2021;
Estreia em Portugal no São Luiz Teatro Municipal, Lisboa, a 8 de novembro de 2021.
Criação e direção: Pippo Delbono
«Que pode uma criatura senão
entre criaturas amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
amar, decisivamente, amar.
Amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que na brisa marinha
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro, uma ave de rapina.
Este é o nosso destino: amar sem conta.
Amar a nossa falta mesma de amor».
Carlos Drummond De Andrade
O projeto nasceu do encontro e da amizade entre Pippo Delbono e o produtor teatral italiano Renzo Barsotti, ativo em Portugal há anos, e do desejo de criar juntos um espetáculo sobre Portugal. A partir daqui começa a pesquisa sobre o “amor” como um sentimento, um estado da alma. Uma verdadeira engrenagem no corpo humano, que seleciona, move, despedaça e remonta tudo o que vemos, ouvimos, tudo o que desejamos.
AMORE é uma viagem musical e lírica através de uma geografia externa – além de Portugal, Angola, Cabo Verde – e uma interna, a das cordas da alma que vibram com a mínima batida de vida. As notas são as melancólicas do fado, que explodem em impulso energéticos através da voz dos seus cantores, bem aberta, chegando a todos os cantos da sala; o ritmo ora de uma parada, ora de um tableau vivant, ora de uma lenta procissão; a imagem é um quadro que muda de cores, aquece e arrefece.
E há depois a palavra poética, restituída através do quente registo do artista da Ligúria com o seu habitual, hipnótico, cantarolar ao microfone. As palavras são de Carlos Drummond De Andrade, Eugénio De Andrade, Daniel Damásio Ascensão Filipe, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jacques Prévert, Reiner Maria Rilke e Florbela Espanca.
“Este espectáculo – conta Pippo Delbono – apresenta uma dupla visão do amor. Por um lado – são os texto que ganham voz – metemo-nos todos à procura daquele amor, tentando fugir ao medo que nos invade. Nesta viagem tenta-se evitar este amor, apesar de reconhecermos constantemente a urgência; procuro-o, mas também o quero, e é exactamente isto que causa medo. Mas o caminho – feito de músicas, vozes, imagens – consegue, talvez, levar-nos a uma reconciliação, a um momento de paz onde esse amor se possa manifestar para além de qualquer medo”.
Mantendo uma montagem emotiva que nunca é completamente pacificada, é uma gramática cénica que alterna do cheio ao vazio, do canto à música, da voz viva ao silêncio, à procura de uma representação onírica e elegíaca da cruel ressaca de desapego e reunificação. Protagonista é a ausência, a distância, a saudade, uma cartografia de emoções que escava a alma do autor, dos seus interpretes e do próprio espectador, chamado a procurar, sempre com os olhos, o que falta e que, inexoravelmente, tarda a manifestar-se.
AMORE quer ser uma tentativa de partilha de um encontro fugaz: o amor é «uma ave de rapina» que agarra e leva embora e que, ao fazê-lo, se apresenta como qualidade totalmente humana. As diferentes línguas que se abraçam na trama sonora são expressões desta terra, Portugal, que acolhe e que deixa rasto; o impulso poético recorda-nos qual a forma de respeito que devemos sempre oferecer a estes impulsos da alma e que de outra forma estão sempre sob o assédio do medo, da desconfiança, da vergonha.
AMORE é ainda a tentativa de levar para dentro do teatro a vida. Nomeando esta palavra, invocando-a de um modo laico e sonhador, temos talvez a possibilidade de dar-lhe voz e, há muito uma grande ausente nos discursos públicos, libertando-a da confusão que reinou por toda a narração desta odisseia global, assustadora, terrivelmente humana.
Fotos: Estelle Valente/São Luiz Teatro Municipal