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Topografia do Sonho

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Estreia em Montalegre em dezembro de 2026.

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TOPOGRAFIA DO SONHO é um manifesto teatral que nasce da tensão entre duas naturezas: a natureza imponente e concreta da paisagem transmontana e a natureza humana, turbulenta e em transformação, da adolescência. Integrado no projeto maior “Rota do Sentir”, este será um objeto artístico construído com adolescentes do conselho Montalegre que recusa o olhar condescendente sobre a juventude para, em vez disso, amplificar o seu grito. Com estreia agendada para Dezembro de 2026, no Pavilhão Multiusos de Montalegre, o espetáculo ocupa uma escala física e simbólica vasta, sendo erguido a partir de uma recolha biográfica e de conversas informais com estes jovens, além da sua participação direta no espetáculo, assim como na relação com a Serra do Gerês, sobretudo nas dimensões plástica (cenografia e vídeo) e sonora do espetáculo.

O eixo dramatúrgico assenta numa relação homónima e conflituosa. De um lado, a “natureza natural” — a paisagem esmagadora do Parque Natural de Peneda-Gerês. Do outro, a paixão e o desejo de quem cresce neste território. Se, por um lado, nascemos num ambiente que nos precede e ao qual nos temos de adaptar, por outro, a adolescência inaugura a dúvida: somos nós que nos construímos a realidade, ou é a realidade que se impõe violentamente sobre nós?

TOPOGRAFIA DO SONHO expõe a depressão anunciada que surge no intervalo entre o devir (quem se deseja ser) e o dever (o que se deve produzir). É um elogio ao erro e à paixão sem culpa, numa cultura que os demoniza ou capitaliza. Em palco, os intérpretes — um elenco misto entre profissionais e jovens não profissionais — reivindicam a arte do desejo como protesto da humanidade face à tirania do resultado. O espetáculo funciona como um espelho invertido apontado igualmente à plateia adulta: o mal-estar juvenil que aqui se apresenta tem ligação direta ao mundo que os adultos (os seus pais e avós) construíram — ou permitiram que se construísse. A figura dos pais é presença fantasmagórica e constante; são eles a face visível de uma realidade esquemática e já pretérita.

Apesar de protagonizado por adolescentes, pretendemos que este espetáculo fale sobre a condição humana universal. Queremos que esta narrativa ressoe com a mesma violência e clareza num espectador de 16 anos como num de 60. Ao convocar a família e a escola como lugares de tensão, TOPOGRAFIA DO SONHO pergunta qual a medida justa da nossa adaptação à realidade. Para nos reencantarmos com o mundo, talvez seja necessário um primeiro desencanto. É nesse labirinto que este projeto se move: entre o desejo de pertença e a necessidade de fuga, procurando, na metáfora verde e aquosa da serra, não uma paisagem postal, mas uma possível resposta para o mistério natural e original: o de existir.

Espetáculo dirigido e escrito pelo encenador Sílvio Vieira, e produzido por Daniela Leitão. A cenografia estará a cargo de Rafael dos Santos, com Luís Silva no desenho de luz e Miguel De a assumir as pastas do som e do vídeo. Uma coprodução entre a Rota do Sentir e a outro Associação Cultural.